EUA pedem isolamento da Nicarágua após Ortega prometer cancelar eleições

EUA pedem isolamento da Nicarágua em resposta à promessa de Ortega de cancelar eleições

O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, solicitou nesta terça-feira (21/07/2026) que a comunidade internacional isole a Nicarágua. A medida surge após o presidente Daniel Ortega anunciar que seu governo deixará de realizar eleições, uma declaração que Rubio classificou como uma revelação de sua "verdadeira natureza autoritária".

O Departamento de Assuntos do Hemisfério Ocidental, em comunicado separado, apelou aos "parceiros hemisféricos" para que se unam aos Estados Unidos no esforço de garantir que o povo nicaraguense possa, finalmente, escolher um futuro livre da tirania. Ortega, que está no poder de forma ininterrupta desde 2007, afirmou no domingo que o país não realizará mais eleições para impedir que movimentos apoiados pelos EUA cheguem ao poder. Ele e sua esposa, Rosário Murillo, que foi nomeada copresidente, "abandonaram até mesmo a aparência de consentimento popular", ressaltou Rubio.

Críticas à consolidação do poder de Ortega

A decisão de Ortega de suspender as eleições intensifica as preocupações sobre o estado democrático na Nicarágua. A última eleição, em 2021, já foi marcada pela prisão de opositores e líderes empresariais, além da criminalização de manifestações. Reformas constitucionais implementadas no ano passado consolidaram ainda mais o poder de Ortega e Murillo, que agora controlam virtualmente todos os aspectos do governo, incluindo as forças armadas e o Judiciário.

"Daniel Ortega vem do movimento Sandinista, que foi um movimento revolucionário da Nicarágua muito importante. Foi presidente lá atrás nos anos 80, com esse caráter do Sandinismo. Hoje a coisa é muito mais complexa", afirma Carolina Silva Pedroso, professora de Relações Internacionais da UNIFESP.

Especialistas apontam que, ao longo dos anos, Ortega gradualmente minou as instituições democráticas para se perpetuar no poder. A repressão a protestos em 2018, que resultou na morte de mais de 300 pessoas, foi classificada por Ortega como orquestrada pelo "imperialismo norte-americano". A administração atual é descrita como menos ideológica e mais autoritária, caracterizada como uma "autocracia do regime Ortega-Murillo".

Repressão a ONGs e à Igreja Católica

A Nicarágua tem enfrentado uma escalada na repressão, que se estende à sociedade civil e à Igreja Católica. Em agosto de 2024, o governo revogou o registro de 1.500 organizações sem fins lucrativos, incluindo grupos religiosos, esportivos, de saúde e de direitos humanos. A motivação oficial alegou falhas na apresentação de relatórios financeiros. O Escritório de Direitos Humanos da ONU classificou os fechamentos como "profundamente alarmantes", em um país onde o espaço cívico foi "fundamentalmente reduzido".

A perseguição à Igreja Católica, que já foi uma aliada do movimento Sandinista, é notória. Nos últimos anos, o governo expulsou freiras, prendeu padres e bispos, e cancelou o status jurídico de organizações como a Cáritas da Diocese de Matagalpa. O bispo Rolando Álvarez, um crítico declarado do governo, encontra-se em exílio após ser condenado por acusações de conspiração e traição.

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