O Bradesco anunciou um aumento de capital de até R$ 10 bilhões, uma medida que divide opiniões entre analistas de mercado. Enquanto o banco aposta na oportunidade de fortalecer sua posição e impulsionar investimentos em tecnologia e eficiência, alguns especialistas levantam a possibilidade de que a operação seja uma estratégia de proteção diante de um cenário econômico adverso, com projeções de aumento na inadimplência e juros elevados.

Fonte: Folha de S.Paulo
Visões divergentes sobre a estratégia do banco
A aprovação do aumento de capital pelo conselho de administração do Bradesco visa, segundo o banco, incentivar os acionistas a participarem da oferta com um desconto de 6%. A instituição argumenta que a medida possibilitará a sustentação de investimentos em tecnologia, eficiência comercial e expansão dos negócios, além de acelerar a transformação digital sob a gestão de Marcelo Noronha. Um caixa mais robusto também pode otimizar o uso do Ativo Fiscal Diferido (DTA), que representa cerca de R$ 120 bilhões, segundo o JP Morgan. Analistas do JP Morgan consideram a decisão correta para o longo prazo, afastando a hipótese de necessidade por deterioração de crédito.
O conselho de administração e a diretoria do Bradesco estão tomando a decisão correta para o longo prazo.
Por outro lado, especialistas de instituições como o Citi e o BTG Pactual ponderam que a operação pode estar atrelada a uma necessidade de reforço de capital antes que um cenário de maior inadimplência e juros se consolide. Analistas do Citi alertam que o banco pode estar aproveitando uma janela de mercado favorável antes de um ambiente potencialmente mais desafiador. O BTG Pactual, embora classifique o anúncio como positivo e inesperado, ressalta que a melhoria na geração de capital tangível é um pré-requisito para uma visão mais otimista sobre o investimento no Bradesco.
Estrutura de controle e participação familiar
A participação acionária de controle no Bradesco está nas mãos de holdings como Cidade de Deus (23,14%), NCF (5,41%) e Fundação Bradesco (8,65%). As acionistas controladoras, ligadas à família do fundador Amador Aguiar, comprometeram-se a subscrever até R$ 8 bilhões do total, valor mínimo para a homologação parcial do aumento de capital. As herdeiras de Amador Aguiar, Lia e Lina (gêmeas de 88 anos), e os filhos de Maria Ângela (falecida em 2025) são as principais figuras por trás dessas holdings. Lia, por exemplo, que foi casada com o empresário Fábio Fasano, criou uma fundação social e possui um museu de carros antigos, declarou que destinará toda a sua herança para sua fundação.
Desdobramentos e perspectivas
Apesar das incertezas, a expectativa é que o Bradesco anuncie iniciativas adicionais para otimizar o uso de seus ativos fiscais diferidos. Analistas como Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, veem a medida como uma antecipação estratégica para preservar a flexibilidade financeira e sustentar o crescimento futuro. André Matos, CEO da MA7 Capital, sugere que a estratégia de antecipar Juros sobre Capital Próprio (JCP) para a aquisição de novas ações visa a remuneração permanente de capital com benefícios fiscais. Contudo, ele ressalta que apenas a análise do próximo balanço do banco poderá confirmar se o reforço de capital será um motor de crescimento ou uma proteção contra um ciclo de inadimplência mais severo. No curto prazo, as ações do Bradesco apresentavam queda de 1,25%, cotadas a R$ 18,12, movimento esperado devido à diluição do valor por papel e ao desconto oferecido na oferta.