Vírus zoonóticos: Ameaça crescente com mudanças climáticas e globalização

Ameaça Global de Vírus Zoonóticos Ampliada por Mudanças Climáticas e Globalização

Um alerta paira sobre a humanidade: as doenças infecciosas zoonóticas, transmitidas de animais para humanos, têm aumentado drasticamente nas últimas décadas. Impulsionadas pelas mudanças climáticas e pela exploração dos ecossistemas animais, estima-se que existam 10.000 vírus desconhecidos em mamíferos selvagens com potencial de infectar humanos. A virologista veterinária Elisa Pérez Ramírez do CISA-INIA-CSIC adverte: “O hantavírus é o mais recente de uma longa lista de vírus zoonóticos que têm complicado nossas vidas nos últimos anos. Este alerta destaca um problema global.”

Impacto do Hantavírus e Outros Vírus

O recente surto de hantavírus serve como um lembrete crítico. Antes disso, a comunidade científica enfrentou desafios significativos com o SARS-CoV-2, além de momentos de tensão com a varíola dos macacos, febre hemorrágica da Crimeia-Congo, vírus do Nilo Ocidental e surtos de Ebola. Uma análise de 2023 revelou um aumento exponencial nos surtos e mortes associados a vírus de alto risco, como Ebola, Marburg, SARS-CoV-1, Nipah e Machupo. Os autores alertaram que, se essa tendência persistir, esses patógenos podem causar quatro vezes mais casos de transmissão para outras espécies e 12 vezes mais mortes até 2050, comparado com 2020.

Fatores que Contribuem para o Aumento de Zoonoses

A atividade humana desempenha um papel crucial no aumento das zoonoses. A virologista Elisa Pérez Ramírez destaca o aumento das interações com animais selvagens, a perturbação dos ecossistemas, as mudanças climáticas, a globalização e o turismo em áreas remotas. O aquecimento global altera ecossistemas, aumenta populações de vetores como mosquitos e desloca a vida selvagem. O desmatamento e a urbanização também facilitam o contato entre espécies e a disseminação de vírus.

“Nos últimos anos, houve um acúmulo de eventos zoonóticos relacionados ao aumento das interações com animais selvagens, à perturbação dos ecossistemas, às mudanças climáticas, à globalização e ao turismo em locais remotos”, enumera Pérez Ramírez.

O Caso do Vírus Nipah

Um exemplo claro é o vírus Nipah, que saltou de morcegos para porcos e depois para humanos devido a mudanças ecológicas causadas pela atividade humana, especificamente a instalação de granjas de suínos na floresta tropical. O desmatamento e a expansão de assentamentos humanos em áreas tradicionalmente selvagens facilitam o contato entre espécies e a disseminação de vírus entre animais ou para pessoas.

Hipermobilidade e o Risco de Disseminação

A hipermobilidade global aumenta o risco de disseminação de doenças. A capacidade de viajar de uma ponta à outra do planeta em menos de 24 horas, um período menor que o período de incubação de muitas doenças infecciosas, facilita a propagação. Além disso, o transporte de animais e insetos que podem ser vetores de doenças infecciosas agrava a situação. María Paz Sánchez Seco, pesquisadora do Ciberinfec, confirma o aumento da frequência de vírus exóticos e casos autóctones na Europa, impulsionado pela colonização de novos territórios por mosquitos vetores.

Gripe Aviária e Coronavírus: Principais Preocupações

Entre os diversos microrganismos, Pérez Ramírez expressa particular preocupação com o vírus da gripe, especialmente a gripe aviária, e os coronavírus. A capacidade da gripe aviária de variar seu material genético e infectar outros hospedeiros, incluindo mamíferos, é alarmante. A disseminação para vacas leiteiras nos Estados Unidos também preocupa os especialistas. Sánchez Seco concorda que esse é provavelmente o vírus zoonótico que mais preocupa a comunidade científica.

Medidas de Prevenção e Vigilância

A comunidade científica prevê surtos zoonóticos cada vez mais frequentes no futuro. A facilidade de identificar um surto em qualquer momento será crucial. Almuedo destaca a importância da vigilância epidemiológica, da preparação e da resposta a potenciais crises de saúde sob uma perspectiva de Saúde Única, que reconhece a interligação entre a saúde ambiental, animal e humana. Sánchez Seco defende a necessidade de investir mais na vigilância, na resposta e no controlo das doenças zoonóticas emergentes.

Mudanças de Estilo de Vida e Conscientização

Especialistas enfatizam a necessidade de maior conscientização sobre as causas profundas desses problemas e como os estilos de vida atuais contribuem para o aumento dessas doenças. Pérez Ramírez sugere repensar certas atividades de ecoturismo que invadem territórios selvagens e colocam as pessoas em risco. A prevenção e o controle da exposição a roedores silvestres, junto com a busca rápida por atendimento médico diante de sintomas suspeitos, são cruciais. É imperativo repensar a interação humana com o meio ambiente e fortalecer a vigilância para mitigar os riscos de futuras pandemias zoonóticas.

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