O governo brasileiro está avaliando a liberação de aproximadamente R$ 17 bilhões do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) com o objetivo de auxiliar trabalhadores no pagamento de dívidas. A medida, ainda em análise pelo Ministério do Trabalho (MTE), prevê diferentes abordagens para beneficiar tanto pessoas de menor renda quanto aquelas que aderiram ao saque-aniversário e tiveram parte do saldo bloqueado.
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Fonte: G1
Medidas em Análise
O plano em estudo pelo MTE engloba duas principais medidas. A primeira visa destinar até R$ 10 bilhões para auxiliar pessoas de menor renda na quitação de dívidas. O foco será em trabalhadores com salários mais baixos, excluindo aqueles com rendimentos mais elevados, como R$ 20 mil, que teriam maior capacidade de arcar com os débitos. No entanto, o Ministério ainda não especificou um teto salarial para essa proposta.
A segunda medida, já divulgada, prevê a liberação de cerca de R$ 7 bilhões para aproximadamente 10 milhões de trabalhadores que aderiram ao saque-aniversário, foram demitidos e tiveram parte do saldo do FGTS bloqueada como garantia de empréstimos bancários. Essa proposta busca devolver valores que ficaram bloqueados além do necessário nessas operações.
Como Funciona o Bloqueio no Saque-Aniversário?
Quando um trabalhador opta pela antecipação do saque-aniversário, a Caixa Econômica Federal retém parte do saldo do FGTS como garantia do empréstimo. Contudo, o valor bloqueado costuma ser superior ao valor real da dívida. A proposta em estudo prevê a liberação desse excedente, com depósito direto na conta do trabalhador. Essa medida deve alcançar quem utilizou a antecipação do saque-aniversário entre janeiro de 2020 e 23 de dezembro de 2025.
Reação do Mercado e Especialistas
Apesar do objetivo de auxiliar a população endividada, a medida tem gerado debates entre especialistas e setores econômicos. Juliana Inhasz, professora de economia do Insper, alerta que usar o FGTS para quitar dívidas pode ser como tirar o "colchão" de segurança do trabalhador, postergando um problema estrutural na sociedade brasileira: o reendividamento. A especialista defende que o foco deveria ser nas causas do endividamento, como a baixa renda da população.
Outros analistas, como Fábio Gallo, professor de Finanças da FGV-SP, comparam a medida a "enxugar gelo", argumentando que a raiz do endividamento está no descontrole da economia brasileira e em um problema sociocultural. Eles apontam que a inflação alta e os juros elevados criam um cenário desfavorável para o crédito, levando ao endividamento da população.
Impacto no Setor Imobiliário
O setor imobiliário também expressa preocupação com a possível liberação do FGTS para o pagamento de dívidas. Atualmente, o FGTS é uma das principais fontes de financiamento habitacional e imobiliário no país. A Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) destaca que o Fundo ajudou mais de 10 milhões de famílias a conquistarem a casa própria e movimentou aproximadamente R$ 1,3 trilhão em investimentos nos últimos 15 anos.
Luiz França, presidente da Abrainc, afirma que a medida pode prejudicar a habitação e criar um problema social ainda maior, tendo em vista o déficit habitacional no país. A associação defende que o FGTS deve ser utilizado para habitação, saneamento e infraestrutura, e que a retirada de recursos do fundo pode impactar negativamente o acesso à moradia.
Desenrola 2.0 e a Unificação de Dívidas
O governo também estuda outras medidas para auxiliar os endividados, como o Desenrola 2.0, um novo programa para renegociação de dívidas que pode permitir o uso de recursos do FGTS para abater débitos. Além disso, o governo avalia a possibilidade de unificar as dívidas das pessoas físicas em um só débito, com juros mais baixos e descontos no principal, em um processo de renegociação feito diretamente com os bancos.
Conclusão
A proposta de liberar recursos do FGTS para o pagamento de dívidas é uma medida complexa, com potencial para auxiliar a população endividada, mas também com riscos e desafios a serem superados. É fundamental que o governo avalie cuidadosamente os impactos da medida e implemente políticas complementares para atacar as causas do endividamento e garantir a sustentabilidade do Fundo.
A medida do governo busca amenizar o endividamento da população, mas especialistas questionam sua eficácia a longo prazo. Será que essa é a melhor solução ou apenas um paliativo?
Para entrar em vigor, a medida que libera os R$7 bilhões necessitará da edição de uma Medida Provisória (MP). Diferentemente da medida de até R$ 10 bilhões, essa iniciativa não terá recorte por faixa de renda, já que se trata de recursos que já pertencem ao trabalhador, mas que permaneceram retidos em excesso.
O governo pretende injetar até R$17 bilhões na economia, liberando os recursos do FGTS para auxiliar no pagamento de dívidas da população brasileira.