O regime do Microempreendedor Individual (MEI), criado em 2008 para formalizar trabalhadores vulneráveis, está sob intenso escrutínio no Brasil. Pesquisas do Banco Mundial, FGV Ibre e Sebrae revelam um desvio de seu propósito social original: o programa tem beneficiado desproporcionalmente a população de alta renda. Essa constatação impulsiona um debate urgente sobre a sustentabilidade do sistema previdenciário e a necessidade de reformular as regras do MEI.
Desvirtuamento e "Pejotização" do MEI
Com 17 milhões de CNPJs ativos, o MEI demonstra um cenário distinto do planejado. Dados (Banco Mundial/IBGE) indicam que 8% dos trabalhadores de alta renda o utilizam, superando faixas mais pobres. Estudo FGV Ibre (2022) mostra que mais da metade dos MEIs ganhava acima de dois salários mínimos, contra apenas 11,4% abaixo de um. O subsídio de R$ 9 bilhões (2025) beneficia largamente quem não é o público-alvo. A “pejotização” é outro problema: Sebrae aponta que 60% dos novos MEIs tinham emprego formal. Tese da USP estima 53% atuando como assalariados disfarçados, uma realidade que muitas vezes é uma escolha estratégica para maior remuneração.
Reformas Propostas: Divergências Governamentais e de Especialistas
O governo federal propôs elevar o teto de faturamento do MEI para R$ 110 mil (2027) e R$ 140 mil (2028), permitindo dois empregados, divergindo de alerta do Ministério do Planejamento (2022) sobre riscos à Previdência. Fernando de Holanda Barbosa Filho (FGV Ibre) questiona:
"Não vejo motivo para limites tão elevados em programas de caráter social."Em contraste, um estudo de especialistas sugere reforma profunda com elevação da alíquota de contribuição do MEI dos atuais 5% para 11%, idade mínima de 67 anos para aposentadoria (ambos os sexos), bônus para mulheres por maternidade e revisão de aposentadorias especiais (rurais, professores, policiais).

Fonte: Jornal do Comércio
Envelhecimento Populacional e o Desafio Fiscal da Previdência
O rápido envelhecimento da população brasileira e as mudanças no mercado de trabalho são os principais vetores das discussões. Com baixa fecundidade e alta expectativa de vida, o número de aposentados supera trabalhadores ativos. Projeções indicam 32,5 milhões de novos beneficiários no INSS nos próximos 30 anos. O déficit do Regime Geral de Previdência Social (R$ 330 bilhões em 2026) pode alcançar 10,41% do PIB em 2100, com gastos superando 16% do PIB. Isso evidencia a urgência de reformas para a sustentabilidade fiscal do país.
Conclusão: Perspectivas e Impactos Amplos
As propostas dos especialistas são ainda um estudo técnico, sem previsão formal de envio ao Congresso. Qualquer alteração exigirá iniciativa governamental, análise parlamentar e aprovação de uma PEC, precedida por amplo debate social. As regras da Reforma de 2019 seguem vigentes. Para contadores, profissionais de RH e empresários, o acompanhamento é vital, dadas as implicações no planejamento previdenciário, custos trabalhistas e contribuições ao INSS, moldando o cenário econômico e social do Brasil.