Copa 2026: Torneio pode ser o mais poluente da história, dizem estudos

A Copa do Mundo de 2026, organizada por Canadá, Estados Unidos e México, tem gerado preocupações significativas sobre seu impacto ambiental. Apesar das promessas de sustentabilidade da FIFA, especialistas alertam que o torneio pode se tornar o mais poluente da história, com estimativas de emissão de milhões de toneladas de dióxido de carbono. A principal causa seria a expansão do formato, que passa de 32 para 48 seleções e de 64 para 104 partidas, exigindo extensos deslocamentos aéreos de delegações e milhões de torcedores por toda a América do Norte.

Aumento Exponencial das Emissões e o Custo Climático

Estudos recentes da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, apontam que a Copa de 2026 deve emitir cerca de 4,23 milhões de toneladas de carbono, um aumento de 11% em relação à edição anterior. Outro relatório, "FIFA’s Climate Blind Spot", sugere números ainda maiores, acima de 9 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. A vasta maioria dessas emissões, cerca de 82% a 85%, provém do transporte dos torcedores. Essa projeção equivale à pegada de carbono anual de um país como a Islândia, evidenciando a escala do problema.

Se a FIFA decidisse repassar os custos de compensação dessas emissões aos torcedores, cada ingresso de partida teria um acréscimo médio de US$ 114 (aproximadamente R$ 560), conforme cálculos dos economistas ambientais de Cambridge. Esse valor sublinha o impacto financeiro e ambiental dos deslocamentos de longa distância necessários para conectar sedes tão distantes como Vancouver, Miami e a Cidade do México, tornando inviável qualquer plano sério de descarbonização.

O "Greenwashing" e o Paradoxo da Má Adaptação

A promessa da FIFA de um torneio de vanguarda ambiental foi baseada, em parte, no argumento de que quase nenhum estádio novo seria construído, ao contrário da Copa do Catar em 2022, que viu sete novas arenas. Contudo, especialistas criticam essa visão, classificando-a como um claro exemplo de "maquiagem verde" (greenwashing). Segundo Alejandra del Carmen Meza Servín, professora da Universidade de Guadalajara:

"Dizer que esta Copa do Mundo é sustentável apenas porque haverá reciclagem nas arquibancadas ou porque serão usadas lâmpadas de LED nos estádios é, na realidade, um exemplo claro de maquiagem verde ou greenwashing."

O modelo dos "megaeventos esportivos", com sua expansão contínua e fomento ao turismo em massa, anula qualquer benefício de medidas locais de eficiência. A crise climática já afeta os gramados, com altas temperaturas nas cidades-sede. A "solução" de ligar o ar-condicionado em potência máxima nos estádios fechados do sul dos EUA ilustra um "paradoxo climático", onde a adaptação para mitigar os efeitos agrava o problema ao aumentar as emissões. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) classifica isso como "má adaptação", ou seja, tentar resolver um problema com ações que o intensificam.

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Fonte: UOL

Propostas para um Futebol Mais Sustentável

Diante desse cenário preocupante, há alternativas para tornar o futebol mais sustentável. Shaun Larcom, professor da Universidade de Cambridge e autor do estudo, enfatiza que a verdadeira sustentabilidade surge quando os organizadores influenciam o comportamento dos fãs e reconsideram a escala dos eventos. Os pesquisadores propõem um modelo de "viabilidade climática" para avaliar se os benefícios sociais e econômicos de um evento justificam seus custos ambientais.

O exemplo da turnê europeia da banda britânica Coldplay em 2024 é citado como um caminho a seguir. A banda conseguiu uma redução de 46% nas emissões totais de sua turnê, principalmente porque os fãs diminuíram suas emissões de viagem em 48%. Isso foi incentivado por aplicativos que comparavam opções de transporte de baixo carbono e descontos para escolhas sustentáveis. Como aplicar essa lógica à Copa do Mundo?

Estratégias de Mitigação:

  • Sedes Regionais e Compactas: Escolher locais que minimizem a necessidade de deslocamentos longos, reduzindo voos de costa a costa.
  • Incentivos ao Público: A FIFA poderia oferecer descontos ou vantagens a torcedores que optarem por meios de transporte com menor emissão de carbono, como trens ou caronas compartilhadas.
  • Compartilhamento de Custos: Incorporar uma taxa climática nos ingressos mais caros, com a receita destinada a pesquisas em aviação limpa ou tecnologias de remoção de carbono. Alternativamente, uma pequena taxa sobre as transmissões televisivas poderia compensar o custo total das emissões.
  • Redução da Escala: A ciência da sustentabilidade alerta que reduzir o número de partidas e seleções, colocando o bem-estar do planeta acima dos índices de audiência, é crucial.

Grandes eventos, com seu enorme poder de mobilização, têm a oportunidade de inspirar a responsabilidade compartilhada necessária para combater as mudanças climáticas. "Se eventos de grande sucesso e enorme popularidade não puderem assumir a responsabilidade por suas emissões, isso deixa pouca esperança para outros setores", conclui Larcom. O apito final para as decisões sobre o futuro do planeta está se aproximando, e o futebol, como um ritual global, precisa repensar seu jogo para garantir sua sobrevivência em um mundo cada vez mais quente.

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