Cientistas e meteorologistas alertam para a crescente probabilidade de um 'super' El Niño até o final de 2026, com potencial para agravar secas, chuvas intensas e ondas de calor em diversas regiões do mundo. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico, pode trazer impactos significativos para a saúde, segurança alimentar e economia global.
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Fonte: G1
Intervalos Encurtando: Uma Tendência Preocupante
Um dos aspectos mais alarmantes é a diminuição dos intervalos entre os eventos de El Niño mais intensos. Dados históricos mostram que, enquanto o tempo entre os fenômenos extremos costumava ser de 10 a 18 anos, o intervalo entre 2015 e 2023 foi de apenas 8 anos. Se a previsão para 2026-2027 se confirmar, esse período cairá para apenas 3 anos. Essa aceleração sugere um padrão preocupante, alinhado com projeções climáticas de longo prazo.
O Que Esperar do 'Super' El Niño?
Ainda há incertezas quanto à intensidade exata do próximo El Niño, mas a NOAA (agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos) estima alta probabilidade de um evento forte até o final de 2026. Projeções do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) indicam que o aquecimento das águas do Pacífico pode ultrapassar 3°C, valor acima do limiar usado para classificar eventos muito fortes. No entanto, especialistas ressaltam que a atmosfera é um sistema caótico, e pequenas variações podem levar a resultados diferentes.
Impactos no Brasil
No Brasil, o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) prevê cenários distintos dependendo da intensidade do El Niño. No Norte e Nordeste, a tendência é de redução das chuvas, aumento das temperaturas e agravamento das condições de seca. Já no Sul, o risco de chuvas intensas e persistentes aumenta, com o Rio Grande do Sul sendo apontado como o estado com maior risco hidrológico, incluindo enchentes, inundações e deslizamentos.
Efeitos na Saúde da População
O El Niño também pode ter impactos diretos na saúde dos brasileiros. Ondas de calor intensas podem causar desidratação, perda de eletrólitos e problemas cardiovasculares, especialmente em pessoas com condições preexistentes. Além disso, o calor e a umidade favorecem a proliferação de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue e chikungunya, e podem agravar doenças respiratórias devido à alteração da qualidade do ar.
O Agronegócio em Alerta
O setor agrícola também deve estar atento aos possíveis impactos do El Niño. No Centro-Oeste, principal polo produtor do país, um regime irregular de precipitações pode ameaçar o enchimento dos grãos das safras de soja e milho. A dificuldade em prever com precisão o volume e a distribuição das chuvas pode dificultar a tomada de decisões no campo, levando a perdas de qualidade e valor da produção. O setor de alimentação coletiva já projeta um aumento de até dois dígitos nos preços dos alimentos.
Lições do Passado: O Super El Niño de 1877-1878
Meteorologistas comparam as atuais condições climáticas com as do ciclo de 1877 e 1878, quando um 'super' El Niño causou uma das maiores crises humanitárias da história. Naquele período, a quebra generalizada das colheitas provocou uma fome em massa que matou de 30 a 50 milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, a seca devastou o Nordeste, causando a morte de cerca de 500 mil pessoas. Embora os países tenham hoje mais capacidade de resposta a eventos climáticos extremos, é fundamental aprender com o passado e adotar medidas preventivas para mitigar os impactos do próximo El Niño.
Como se Preparar?
Diante da incerteza em relação à intensidade do próximo El Niño, especialistas recomendam o monitoramento constante das condições climáticas e a adoção de medidas preventivas. No campo, é importante diversificar as culturas, adotar técnicas de conservação do solo e utilizar sistemas de irrigação eficientes. Na saúde, é fundamental manter a hidratação, evitar a exposição ao sol em horários de pico e adotar medidas de prevenção contra doenças transmitidas por mosquitos. A conscientização e o planejamento são as melhores armas para enfrentar os desafios que o 'super' El Niño pode trazer.
A questão que permanece é: estamos realmente preparados para enfrentar as consequências de um evento climático tão extremo?
"Desde o El Niño de 1982/83, que foi o segundo mais intenso do século passado, o mundo vem estudando em mais detalhe este fenômeno", explica ao g1 Tercio Ambrizzi, especialista em mudanças climáticas e professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.
Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, a complexidade do sistema climático e a incerteza em relação ao futuro exigem um esforço contínuo de pesquisa e adaptação. O 'super' El Niño é um lembrete da nossa vulnerabilidade diante das forças da natureza e da importância de agir de forma responsável para proteger o planeta e garantir um futuro sustentável para todos.
As projeções mais recentes da NOAA mostram que a chance de um fenômeno muito forte aumentou nas últimas semanas. Em abril, a probabilidade de o aquecimento do Pacífico ultrapassar 2 °C era de 25%. Agora em maio, subiu para 37%.