Aprovada na Câmara dos Deputados, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa reduzir a jornada semanal de trabalho para 40 horas e eliminar a escala 6x1 (seis dias de trabalho por um de folga) está agora sob análise do Senado Federal. A medida, que gerou intensa discussão, busca equilibrar a saúde e dignidade do trabalhador com as necessidades econômicas das empresas.

Fonte: Brazil Journal
O que está em jogo?
A PEC aprovada na Câmara estabelece um período de transição para a redução da jornada, com a implementação ocorrendo em duas etapas ao longo de 14 meses. A proposta também garante, preferencialmente, duas folgas semanais, sendo uma aos domingos. No entanto, a aprovação não foi unânime, com alguns deputados expressando preocupações sobre os impactos econômicos, especialmente para as pequenas e médias empresas.
No primeiro turno na Câmara, a PEC recebeu 472 votos a favor e 22 contra, com 18 ausências e uma obstrução. Já no segundo turno, foram 461 votos favoráveis e 19 contrários, com 33 ausências. Partidos como PL e Novo se posicionaram majoritariamente contra a proposta.
PEC Alternativa e a Visão Empresarial
Diante das dificuldades de implementação imediata e dos potenciais impactos nos custos, entidades empresariais apoiam uma PEC alternativa, apresentada pelo Senador Rogério Marinho (PL-RN). Essa proposta visa criar uma jornada flexível, permitindo que o trabalhador negocie diretamente com o empregador a escala e o total de horas trabalhadas.
“A flexibilidade permite que o trabalhador decida o modelo de jornada que melhor atenda às suas necessidades, conciliando sua vida pessoal com seu trabalho, e possibilita que ele adapte sua rotina às demandas e oportunidades do mercado de trabalho.” – Trecho da justificativa da PEC alternativa.
Paulo Solmucci, presidente-executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), destacou a importância de o Senado analisar cuidadosamente os custos da PEC aprovada na Câmara e debater a proposta da jornada flexível. Segundo ele, a implementação imediata da nova jornada pode ser desafiadora para diversos setores.
Saúde, Economia e Dignidade
Defensores da redução da jornada argumentam que a medida é essencial para a saúde, economia e dignidade dos trabalhadores. Análises indicam que a maioria dos trabalhadores brasileiros (74%) está sob jornada de 44 horas semanais, o que pode levar a prejuízos à saúde física e mental.
Dados preliminares de uma pesquisa da UFF revelaram que mais de 70% dos trabalhadores relatam prejuízos à saúde física e mental devido à escala 6x1. Além disso, o Brasil registrou quase 500 mil afastamentos por doenças psicossociais relacionadas ao trabalho em 2024.
Um estudo da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) demonstrou que aproximadamente 30% dos trabalhadores no Brasil sofrem com síndrome de burnout, condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como doença ocupacional desde 2022.
O Custo Invisível da Jornada Longa
A fadiga gerada pela sobrecarga de trabalho compromete a concentração, o tempo de reação e a capacidade de tomada de decisões, aumentando o risco de acidentes de trabalho. Estudos apontam que irregularidades ligadas à jornada excessiva, ao descanso insuficiente ou ao descumprimento das normas sobre férias foram identificadas em 337 de 3.923 acidentes de trabalho analisados entre 2023 e 2024.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho e Emprego, com vigência a partir de 26 de maio de 2025, exige que os empregadores incluam os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) de suas empresas. Isso significa que fatores como estresse ocupacional e sobrecarga decorrente de jornadas prolongadas devem ser tratados como riscos ocupacionais formais.
Países com menores jornadas de trabalho, como Dinamarca, Noruega e Alemanha, apresentam melhores indicadores socioeconômicos, demonstrando que a eficiência e a qualidade de vida podem ser priorizadas em vez da quantidade de horas trabalhadas.
Qual o futuro da jornada de trabalho no Brasil?
A aprovação da PEC na Câmara e a discussão em curso no Senado indicam que o tema da redução da jornada de trabalho está ganhando força no Brasil. A busca por um equilíbrio entre as necessidades dos trabalhadores e as demandas das empresas é o principal desafio. As próximas etapas da tramitação no Senado serão cruciais para definir o futuro da jornada de trabalho no país.
Será que o Senado conseguirá encontrar um caminho que beneficie tanto os trabalhadores quanto a economia brasileira? A resposta para essa pergunta dependerá do debate e da negociação entre os diferentes atores envolvidos.
Enquanto isso, a expectativa é de que o Senado analise com mais cuidado os custos da PEC aprovada na Câmara e coloque em debate a proposta da jornada flexível. O desfecho dessa discussão poderá ter um impacto significativo na vida de milhões de trabalhadores brasileiros e na economia do país.